Desencontrários
Mandei a palavra rimar,
ela não me obedeceu.
Falou em mar, em céu, em rosa,
em grego, em silêncio, em prosa.
Parecia fora de si,
a sílaba silenciosa.
Mandei a frase sonhar,
e ela se foi num labirinto.
Fazer poesia, eu sinto, apenas isso.
Dar ordens a um exército,
para conquistar um império extinto.
Mandei a palavra rimar,
ela não me obedeceu.
Falou em mar, em céu, em rosa,
em grego, em silêncio, em prosa.
Parecia fora de si,
a sílaba silenciosa.
Mandei a frase sonhar,
e ela se foi num labirinto.
Fazer poesia, eu sinto, apenas isso.
Dar ordens a um exército,
para conquistar um império extinto.
* * *
As palavras são também desobedientes comigo...Ficam perdidas...quietas...ou falam alto...gritam! Mas no final acaba dando tudo certo! As palavras indomáveis são particularmente as que me atraem mais: quanto mais arisca é a palavra, mais interessante e sedutora ela é !

8 comentários:
Palavras que instigam, palavras que inquietam, palavras ariscas. Lindo isso... Deixei uma poesia de Drummond no outro texto. Estou adorando o seu blog.
Ainda sobre a palavra. ainda Drummond...
A Palavra
Já não quero dicionários
consultados em vão.
Quero só a palavra
que nunca estará neles
nem se pode inventar.
Que resumiria o mundo
e o substituiria.
Mais sol do que sol,
dentro da qual vivêssemos
todos em comunhão,
mudos,
saboreando-a.
Linda ,não?
Outra de Drummond:
Poesia
Gastei uma hora pensando em um verso
que a pena não quer escrever.
No entanto ele está cá dentro
inquieto, vivo.
Ele está cá dentro
e não quer sair.
Mas a poesia deste momento
inunda minha vida inteira.
Hmmm... palavras inquietas... Isso me sugere que a inquietação faz ninho em sua criatividade e, em sua poesia, faz reflexo.
Bela colocação atemporal.
Gostei.
Continue escrevendo.
Smackz!
Sempre palavras...
O poeta Cacaso nos brinda com um belo e intrigante jogo de palavras. Pra mim é uma poesia arisca!
Quem de dentro de si não sai
Vai morrer sem amar ninguém
A parte perguntou para a parte qual delas
é menos parte da parte que se descarte.
Pois pasmem: a parte respondeu para a parte
que a parte que é mais — ou menos — parte
é aquela que se reparte.
O meu olhar é nítido como um girassol.
Tenho o costume de andar pelas estradas
Olhando para a direita e para a esquerda,
E de vez em quando olhando para trás...
E o que vejo a cada momento
É aquilo que nunca antes eu tinha visto,
E eu sei dar por isso muito bem...
Sei ter o pasmo essencial
Que tem uma criança se, ao nascer,
Reparasse que nascera deveras...
Sinto-me nascido a cada momento
Para a eterna novidade do Mundo...
Creio no mundo como num malmequer,
Porque o vejo. Mas não penso nele
Porque pensar é não compreender...
O Mundo não se fez para pensarmos nele
(Pensar é estar doente dos olhos)
Mas para olharmos para ele e estarmos de acordo...
Eu não tenho filosofia; tenho sentidos...
Se falo na Natureza não é porque saiba o que ela é,
Mas porque a amo, e amo-a por isso
Porque quem ama nunca sabe o que ama
Nem sabe por que ama, nem o que é amar...
Amar é a eterna inocência,
E a única inocência não pensar...
Alberto Caeiro, em "O Guardador de Rebanhos", 8-3-1914
Que esta bela florzinha nunca perca o "pasmo essencial"!!!!
Bjinhos
Essa poesia de Caeiro é uma das minhas preferidas. Grande Pessoa!
Sei ter o pasmo essencial
Que tem uma criança se, ao nascer,
Reparasse que nascera deveras...
Sinto-me nascido a cada momento
Para a eterna novidade do Mundo...
Desejo que você esteja sempre aberta para "a eterna novidade do mundo".
Dora escolheu uma bela poesia!
Tá precisando escrever mais... tá meio parado isso aqui.
rs
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